Olhar (i)real sobre a Guarda

       Balanço 2011 apresentado no Café Mondego


 


    O Rei D. Sancho I efetuou hoje uma visita à Guarda com o objetivo de se inteirar, in loco, da realidade citadina.


    “Isto não me agrada nada”, começou por dizer numa curta declaração aos jornalistas, sem direito a perguntas. Com a mão sempre apoiada no punho da espada – o que para alguns dos elementos da sua, reduzida, comitiva traduzia uma forte irritação – o monarca começou por criticar as transformações da Praça Velha e o “estacionamento selvagem” que ali se verifica.


     “Se era para facilitarem a vida aos automobilistas prevaricadores, porque raio tiveram de arredar a minha figura para um canto da Praça? São mais importantes os carros?”, questionou D. Sancho I, num arrepiante vozeirão que lhe fez tremer a sua férrea coroa. Aliás, este encontro com a comunicação social, marcado inicialmente para aquele espaço, foi transferido para a Torre de Menagem. Maria Pais Ribeira (a conhecida Ribeirinha, que fez questão de acompanhar o Rei), diria, em “off” que “D. Sancho não gosta da atual Praça e nem queria olhar para o globo ali colocado nas última semanas”).


    O monarca, cognominado o Povoador, aludiu, de forma muito crítica, ao crescente despovoamento da região da Guarda, ao número de assaltos e atos de vandalismo, ao atraso e incumprimento do “Arco Comercial” e ao “preocupante encerramento de empresas, casas comerciais e aumento de desemprego. Foi para isto que eu dei Carta de Foral à Guarda? Não há auto-estima nos guardenses? A Guarda não tem força política?”... A “sementeira” de eólicas “sem qualquer critério” mereceu igualmente o repúdio de D. Sancho. “O que vejo nalguns locais é uma vergonha, um escândalo!”.


    Num discurso bem estruturado, e com uma dicção perfeita (a determinado passo beliscou mesmo os profissionais da comunicação que “não sabem falar nem pronunciar a nossa língua”...), o Rei condenou a solução (“ou falta dela”) encontrada para o Hotel de Turismo (onde disse ter pernoitado na última vinda à cidade, aquando das comemorações do 800 º centenário), reprovou o atraso na implementação do Museu de Arte Sacra da Guarda (“vejam o que passou na Covilhã!”), comentou a paragem das obras do Hospital e manifestou a sua apreensão pelo possível encerramento da Maternidade. “Será que os guardenses andam a dormir? Sim é o que parece, a fazer fé nos índices de natalidade...”.


     A recente introdução das portagens não escapou à sua atenção, considerando ser “um erro que se vai pagar caro, pelas consequências económicas que vai ter, como muitos dos atos irresponsáveis que conduziram a parcerias público-privadas. E não se exigem responsabilidades? Vão continuar todos assobiar para o lado? E anda este pessoal todo a auto proclamar-se republicano...”, comentou D. Sancho I para quem “é tempo de consolidar a união das ditas forças vivas (mais parecem mortas) e lutarmos – cá estarei também eu !!! – pelo futuro da nossa cidade, sem abdicar da sua História, que ajudei a fazer!!! Não me venham depois com desculpas da crise! Há que unir esforços, trabalhar, ser criativo, racionalizar os recursos e planificar com objetividade !!! Acabem lá com os improvisos e remendos!”


    Afirmando que esta visita foi feita, propositadamente, depois da passagem de Ano – para evitar o tráfego das estradas municipais por onde teve de circular – D. Sancho I referiu que se iria deslocar ao Teatro Municipal da Guarda (“felicitar aquela boa gente pelo trabalho que tem sido feito e a incentivá-los a prosseguir mesmo com todos (quantos são, quantos são ???...) os repúdios que possam surgir”.


    O segundo rei da primeira dinastia congratulou-se com os prémios recebidos por Manuel António Pina (Prémio Camões), Eduardo Lourenço (Prémio Pessoa) – “vou tentar ir ainda à sua terra, S. Pedro do Rio Seco e aproveitar para ver em que estado estão os castelos da região raiana” – , pela medalha de mérito cultural do MC atribuída a Américo Rodrigues e igualmente pelo êxito de alguns jovens investigadores da Guarda. “Precisamos destas pessoas, da sua ação do seu exemplo, do seu saber; precisamos de afastar o oportunismo e a mediocridade”.


    D. Sancho I manifestou ainda o seu agrado “pelas publicações que foram este ano apresentadas na Guarda (agradou-lhe, particularmente a Euforia Breve e a Guarda em Postal ilustrado), assim com por alguns espetáculos. Aliás quero anunciar que este ano vou estar presente no enterro do Galo do Entrudo.”


    Rendido às novas tecnologias, disse que durante a viagem para a Guarda tinha vindo a escutar, através de podcast, alguns programas da Rádio Altitude, exibindo um luzidio Ipad onde acabara de consultar o sítio do Museu do Côa. “Fico muito satisfeito por este Museu ter sido nomeado para um prémio europeu. E também gostei de saber do prémio atribuído a um catálogo produzido pelo Museu da Guarda”.


     Antes de concluir a sua intervenção, o Rei D. Sancho I, já num tom mais cordato, não deixou apelar aos guardenses para que “combatam o derrotismo, sejam reivindicativos, exerçam a cidadania, lutem pelo engrandecimento desta cidade, evitem a sua subalternização”.


    No final do corrente ano, com adiantou, espera estar na Guarda para apresentar o “Balanço: Guarda 2012”, uma obra que além dos seus textos incluirá um conjunto de depoimentos de outros monarcas, inclusive de casas reais estrangeiras. “Tenho particular simpatia por algumas das princesas europeias. A Ribeirinha que me desculpe”.


    Após este encontro, D. Sancho foi visitar o centro histórico da Guarda, a Igreja de S. Vicente, o antigo Convento de S. Francisco, a estação arqueológica do Mileu e as obras na capela românica adjacente.


 


 

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