Em Almeida vai decorrer a partir de hoje e até domingo, 30 de agosto, mais uma edição da recriação histórica do cerco daquela vila, ocorrido durante a terceira invasão francesa em 1810. Esta iniciativa é já considerada uma referência nacional e internacional na recriação das invasões napoleónicas.
Recorde-se que no passado dia 24 de julho foi assinalado mais um aniversário da trágica batalha do Côa, ocorrida no decurso da progressão dos militares franceses. As tropas anglo-lusas lutaram contra as forças do exército francês do Marechal Ney, no local do Cabeço Negro, junto às margens do rio; esta batalha antecedeu a queda da fortaleza de Almeida e a sua ocupação pelas tropas que entraram em Portugal, sob o comando de Massena.
O Rio Côa foi, até 1297, foi o limite da fronteira entre os territórios dos reinos de Portugal e Castela; atravessa o concelho de Almeida e é um dos poucos a correr de sul para norte. Com a assinatura do Tratado de Alcanices, por D. Fernando de Castela e D. Dinis de Portugal, o castelo de Almeida – entre outras fortalezas – passou para o domínio da coroa portuguesa.
Esta zona teve um grande papel estratégico, do ponto de vista militar; aqui se travaram, ao longo dos séculos, várias batalhas. A importância da fortaleza de Almeida cedo foi acentuada; após o primeiro de dezembro de 1640, o rei D. João IV ordenou a sua reparação, face aos momentos e às difíceis contendas que se avizinhavam.
Desde logo ficou percetível o papel preponderante que Almeida ia ter no processo bélico de manutenção da independência. A vila foi transformada em sede do quartel-general do Governador de Armas da Beira, constituindo-se na mais importante praça do reino português.
Álvaro de Abranches, um dos conjurados da Revolução de 1640 e membro do Conselho de Guerra de D. João IV, foi o primeiro Governador de Armas de Almeida, empenhando-se, de imediato no seu eficaz guarnecimento, rentabilizado o sistema de fortificações de que estava dotada.
A história de Almeida cruza-se, mais tarde, com as célebres – quanto dramáticas – invasões francesas. Destas, a terceira incursão conduzida por André Massena foi a que deixou marcas mais profundas na denominada “Estrela de Pedra”.
Após a conquista de Ciudad Rodrigo (Espanha), em 10 de Junho de 1810, pelas tropas francesas o objetivo do exército invasor era dominar a praça portuguesa, que teria cerca de 2000 habitantes e estava guarnecida com 5 000 soldados e 115 peças de artilharia. Com a aproximação das forças francesas, o comando do exército anglo-luso apelou aos habitantes para abandonarem as suas casas e levarem os seus haveres.
Nos primeiros dias de agosto de 1810 o Marechal André Massena mandou avançar o Oitavo Corpo do exército francês, sob o comando de Junot, dando início ao cerco de Almeida, a 10 de agosto, cuja guarnição militar era chefiada pelo coronel inglês Guilherme Cox, sendo Tenente-Rei o almeidense Francisco Bernardo da Costa.
O cerco decorria há 17 dias quando, ao cair da noite, uma granada francesa provocou uma explosão em cadeia que destruiu o paiol principal, onde estavam armazenadas 75 toneladas de pólvora; centenas de mortos e enormes danos no interior da fortaleza foi o balanço imediato da tragédia.
Na manhã seguinte, 27 de agosto de 1810, Massena exigiu do comandante inglês a rendição imediata da praça, o que acabou por suceder nessa noite.
A fortaleza de Almeida, em estilo Vauban, tem uma planta em forma de estrela irregular, integrando seis baluartes: o de S. Francisco, São João de Deus, Santa Bárbara (designado também de Praça Alta), do Trem (ou de Nossa Senhora das Brotas), Santo António e São Pedro, articulados com idêntico número de revelins.
O conjunto monumental deste baluarte beirão encontra-se rodeada por largos e profundos fossos. Para além das majestosas Portas de Santo António e São Francisco destacam-se no complexo desta fortaleza abaluartada as casamatas, espaços subterrâneos cuja estrutura e solidez os tornava imunes às bombas da época.
No interior do perímetro amuralhado encontra-se o Quartel das Esquadras que ficou a dever-se ao Conde de Lippe (Frederico Guilherme de Schaumburg-Lippe), edifício onde estiveram instaladas forças de infantaria; a antiga Casa dos Governadores da Praça de Almeida; o edifício do Corpo da Guarda Principal (onde funciona a Câmara Municipal), a Igreja da Misericórdia, a Casa dos Vedores Gerais, a Casa da Câmara e o Antigo Convento de Nossa Senhora do Loreto (atual Igreja Matriz) são outros edifícios emblemáticos desta vila do distrito da Guarda.
A recriação histórica começa hoje, pelas 22h00 no Picadeiro D’el Rey acontece o Baile e Sarau Cultural Oitocentista “Do Salão até à Praça”.
O Município de Almeida promove, amanhã e domingo (29 a 30 de agosto), visitas técnicas subordinadas ao tema "Da efeméride do Imperador à tomada da Fortaleza: uma visita pela Praça-forte de Almeida". Esta atividade é um convite para o público geral, desafiando o visitante a explorar as marcas de guerra deixadas nas muralhas abaluartadas e no centro histórico de Almeida, descobrindo vários pontos de interesse, no contexto do cerco efetuado entre os dias 15 a 28 de agosto de 1810.
O percurso orientado, com uma extensão de 2,2 quilómetros e uma hora e trinta minutos de duração, ocorre no sábado das 10.30 às 12 horas e das 17h30 às 19 horas, enquanto que no domingo será das 15 às 16h30, com ponto de encontro no Centro Interpretativo da Fortalezas Abaluartadas da Raia, Portas Externas de São Francisco, em Almeida.
Com esta recriação histórica, que se inicia já hoje, Almeida “regressa ao passado, recriando episódios, ambientes, personagens e vivências de outras épocas, num evento que conjuga a valorização do património histórico e cultural com a animação e a participação do público”.
Durante estes três dias vão decorrer, paradas militares, acampamentos históricos, demonstrações de táticas de batalha, enquanto no Mercado Oitocentista, os visitantes podem observar a recriação do trabalho de artesãos, mercadores e ofícios do século XIX.
Hélder Sequeira
